A cantora | texto
Hey baby custs, então como estão?
Então o post de hoje é em recompensa do post de ontem que não consegui por no ar, mas estou aqui viu?! Ele é um texto feito por um amigo, então esperamos que gostem do texto do Pedro Henrique.
O homem
que beirava os 30 anos, com cabelos levemente compridos de um negro intenso,
sentou-se em frente à máquina de escrever e bateu com a ponta do cigarro no
cinzeiro, mas largando o seu vício para se focar noutro. Estalou os dedos
frente ao corpo, então liberando a fumaça tóxica pelas narinas e movendo
rapidamente os longos dedos. Como de praxe, criou o cabeçalho com rapidez e
logo abriu algumas linhas em branco. Não tinha certeza sobre o que escrever,
pela primeira vez estava misturando sua vida pessoal com a profissional, e de
certo modo era incômodo. Não gostava de misturar seus sentimentos com o
trabalho, embora todo se pusesse a crer que seu trabalho depende disso.
Deixando de lado os pensamentos que lhe saltavam a mente, tentou focar-se em
ser profissional, nada, além disso. Respirando fundo o ar que fedia ao fumo,
logo começou a teclar quase no automático. "Deixando de lado todo o teor
jornalístico desta matéria, não vou comentar sobre o quanto a Srta. Silveira
canta bem ou quão boa é sua presença de palco nos bares onde ela desperdiça sua
melodiosa voz para os malditos militares e políticos apoiadores da ditadura,
que não possuem gosto algum pela boa música, até por que acabaria por ser
caçado e acusado de golpe. Ao invés disso, vou falar da jovem Caroline de uma
formal mais pessoal, relevar sua beleza estonteante, suas madeixas loiras e
seus lábios vermelhos que me levaram a entrevistá-la. Nestas poucas noites que
visitei Caroline e a levei para os cafés de fim de tarde, notei algo que talvez
homem algum tenha notado nela - e se notou, não deu valor. Percebi que ela não
é apenas um rosto bonito, também é doce, gentil e possui um intelecto raro.
Falando nisto, raridade é uma excelente palavra para defini-la. Seus gostos e
modos de ver as coisas são tão distintos e inocentes que contrastam com a época
que vivemos. Tudo nela emite tanta pureza, tanta bondade, que cativa qualquer
um que a conheça. Mesmo tendo conhecido a por tão pouco tempo até agora, afinal
não pretendo perder o contato com ela -, pude notar o quão perdida ela se sente
neste lugar, como ela se sente distante de todos, mas mesmo assim demonstra uma
facilidade para se aproximar de quem deseja - e tive a sorte de ser uma das
pessoas que ela desejou se aproximar, agradeço muito por isso. Poderia passar
todos os dias da minha vida mencionando suas inúmeras qualidades, e até
pretendo fazer isto, se ela me der a honra. Mas meu espaço no jornal é
limitado, e para vocês isto é tudo." Por fim, quando o som das teclas
parou e a folha já não recebia novas palavras, o homem afastou um pouco a
cadeira avaliando o que escreveu. Não escreveu o que devia, e sim o que queria,
exatamente o que queria.
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